O lado positivo da cozinha mora em Lisboa / Optimista [in:mutante]

O lado positivo da cozinha mora em Lisboa / Optimista

As cartas são inspiradas, sobretudo, no receituário regional do nosso país. Cada garfada aviva memórias, sabores deixados pelas nossas avós, pais ou tios que já foram cozinheiros. Tudo é saboreado num ambiente descontraído e pensado ao pormenor.

O espaço, localizado entre o Cais do Sodré e Santos, é pequeno, mas muito acolhedor. As seculares arcadas deixam antever Pureza, a mascote deste espaço optimista, luminoso, confortável e determinado pelo cruzamento entre o clássico e o contemporâneo. Os autores são Jorge Guimarães, arquitecto, e Rita Andringa, designer de interiores, que deixaram o lambril em pedra e o pavimento hidráulico mostrarem o seu valor. Sem esquecer a arte, elementos importante neste conjunto de peças que comungam com as cerâmicas discretamente distribuídas pelas arcadas, a tapeçaria da Ferreira de Sá, de Espinho, os quadros e a fotografia.

Tudo tem uma explicação. Filipe Rocha e Rita Andringa concretizaram, finalmente, o sonho de abrir um restaurante. Depois dos supper clubs em casa e da Cafetaria Carpe Diem, no Bairro Alto – onde a arte a comida se conjugavam no mesmo espaço –, ambos abriram as portas deste Optimista em Outubro de 2017. Ao casal juntou-se, mais tarde, Pedro Ventura, que assistiu, desde o início, a este projecto. Cada um tem um papel importante neste espaço: Filipe é a presença assídua na sala, sempre com um olho na cozinha; Pedro prefere a hora do jantar e contribui para a harmonização vínica com os pratos; e Rita tem a missão de verificar cada detalhe, desde a decoração ao empratamento.
Sentemo-nos. À mesa, de tampo em mármore português, chegam os pratos, também eles de marca nacional, inspirados em receitas tradicionais portuguesas. Mas há cozinhas pelo mundo afora que também fazem do Optimista um restaurante de mão cheia. Os fornecedores estão, maioritariamente, no Mercado da Ribeira, além de outros mais especializados, como os queijos ou a broa, por exemplo. Por isso, que há no mercado é que vai para a cozinha e e trabalhado pela equipa liderada pelos chefs André Andrade e Pedro Correia. “Tentamos ser fiéis aos ingredientes. Respeitamos os sabores, as cores, as texturas”, garante Filipe Rocha.

A carta do almoço é composta por quatro entradas, cinco pratos – três do dia, sempre diferentes, e dois comuns à carta de jantar – e quatro sobremesas. A carta do jantar inclui clássicos e boas novas que vão surgindo ao sabor dos produtos da estação e do mercado.
Enquanto aguarda pelo início do almoço, talvez seja melhor começar pelo couvert – pão regional, manteiga composta, molho do Bulhão Pato e azeitonas – ou passar logo para as entradas. Aqui não falta a sopa da época que, tal como o nome indica, é feita a partir dos produtos… da época.

Para começar, recomendamos a tomatada com infusão de alecrim e ovo cozinhado a baixa temperatura acompanhada por fatias de pão torradas. O pica pau com berbigão e molho do Bulhão Pato é de comer até à última garfada, além de que é imperativo ter pão. Ou o xerém frito e lingueirão em maionese de alho confitado é outra da propostas do Optimista, ou os croquetes de rabo de boi, um clássico deste restaurante, ou as bolas de arroz recheadas com Queijo da Ilha.

Em suma, solicite a tábua portuguesa com a selecção de entradas parapartilhar com os amigos.

Para o prato principal a escolha é difícil. Há uma novidade: bife do espelho da agulha servido em seixo quente, por baixo do qual está um ramo de alecrim, e acompanhado com tiras de xerém – feito com caroulo ou farinha de milho – fritas, molho de cheiros e pickle de três pimentos.
Melhor ainda: há pastéis de massa tenra recheados com carne de vaca, tomada, beringela, cebola, alho francês e cenoura ralada. De comer e chorar por mais, até porque são servidos com um arroz de espinafres “de comer e chorar por mais”. Estes pastéis também são uma boa opção para quem é vegetariano, uma vez que a banha é substituída pelo azeite, na massa, e a carne é excluída do recheio.

O risotto de cogumelos e espargos, servido com a generosidade de uma casa portuguesa, pode ser uma das sugestões do chef para o prato vegetariano, assim como os peixinhos da horta também servido com arroz de espinafres.

A feijoada de choco é outra das opções, mas só quando for o dia deste prato na carta de almoço.

Os optimistas jamais declinam a sobremesa. Desde o irresistível bolos de chocolate da Pureza ao novo mil-folhas de massa brick, curd de ananás, mousse de coco, chocolate e frutos vermelhos. Farinha à parte, o primeiro é feito apenas com chocolate preto, manteiga e calda de açúcar e servido com amêndoa laminada coulis de framboesa e gelado de nata e manjericão. Há ainda leite creme com infusão de alecrim, o qual é queimado ao momento, como manda a cartilha.

De parte não fica a sopa fria de calabaceira. A harmonização do sumo deste fruto do embondeiro com os restantes ingredientes desta sobremesa reporta-nos para uma curta viagem com os navegadores portugueses, já que é constituída pela lima e pela tapioca do Brasil, pelos amendoins da Índia, pelos figo e pelos frutos vermelhos.

Aos apreciadores de cocktails, aconselhamos a respectiva carta elaborada por Maria Hipólito. Aos amantes dos vinhos, o melhor é espreitar a carta vínica sucinta, bem elaborada e recheada de boas sugestões de Norte a Sul do país, onde não faltam as castas, o ano, nem a região vitivinicola, bem como as especificidades devidamente agrupadas por referências vínicas.

A marcação do Optimista, no n.º 86 da Rua da Boavista, em Lisboa, é recomendada, seja ao almoço (das 12h00 às 15h30), seja ao jantar (das 19h00 às 23h00), através do 213 460 629.

Vale a pena ir. Bom apetite! •